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OS FILMES LGBTQIAPN+ NA HISTÓRIA DO CINEMA

  • Categoria: Cinema
  • Publicação: 06/10/2025 23:29
  • Autor: Gustavo Snyder


Quando pensamos no início da representatividade LGBTQIAPN+ na história do cinema podemos, de maneira equivocada, presumir que, talvez ela tenha acontecido tardiamente. Mas não é bem assim. Na verdade, essa representatividade está lá desde o início. De maneira tímida, é verdade…mas ela está lá. Apesar de fazer parte da história do cinema desde seu início, ela não representa nem a metade dos produtos lançados pro audiovisual desde então.

Mesmo com toda a revolução estética, narrativa e até mesmo mercadológica pela qual o cinema passou em mais de 120 anos de história, ainda hoje é tabu pra algumas pessoas falar sobre o tema. E as razões pra isso acontecer são as mais variadas. Vão desde o preconceito altamente enraizado na nosso cultura, um “pretenso” conservadorismo e a mais pura falta de interesse na maioria das pessoas em querer conhecer e saber mais sobre o assunto.

Apesar disso, o tema sempre esteve em voga e a primeira menção a ele nas telonas data de 1895. The Dickinson Experimental Sound Film é um curta metragem de apenas 17 segundos dirigido por Willian K. Dickson para a Edison Studios de Thomas Edison. No curta, vemos dois homens dançando ao som pós-introduzido de um violino e que, na verdade é mais uma cena cômica do que qualquer outra coisa.

Anos mais tarde, em 1916, o diretor Mauritz Stiller nos apresenta Vingarne, um filme sueco baseado no romance Mikael (1902) de Herman Bang. Um dos primeiros filmes a flertar com a temática, a obra conta a história de um escultor homossexual que tem um envolvimento com seu modelo e amante bissexual Mikael e também com a condessa Lucia de Zamikoff.

Mas foi somente em 1919, que vimos pela primeira vez, um filme assumidamente homoafetivo. A produção alemã, Diferente dos Outros (1919) de Richard Oswald com o espetacular Conrad Veidt, mostra a história de um violinista que está a beira do suicídio por estar sendo chantageado por ser gay.

Em 1922, o diretor Cecil B. deMille, mostrava “A Homicida”, o primeiro filme a mostrar um beijo apaixonado entre duas mulheres…mas foi em 1930 que a lendária estrela Marlene Dietrich, vestida de terno, gravata e cartola, quebra todas as barreiras possíveis ao beijar outra mulher no filme Marrocos do grande Josef Von Sternberg.

Esse momento icônico foi seguido por outra grande estrela do período. A musa maior do cinema Greta Garbo teve casos com um conde e tbm com uma condessa, além de passar a maior parte do tempo vestindo roupas de homem no clássico e imortal Rainha Christine (1933) de Rouben Mamouliam.

Foi nesse período que surgiu o Código Hays que, em linhas gerais, era um conjunto de regras moralistas aplicadas aos filmes lançados nos Estados Unidos entre 1930 e 1968 pelos grandes estúdios cinematográficos. Essas regras impostas pelo código, prejudicaram muito a (pouca) representatividade LGBTQIAPN+ nas telas do cinema americano.

Entretanto, em outras partes do mundo, principalmente na Europa (em países como Alemanha, Itália, França e Reino Unido), conseguimos observar alguns avanços (bem tímidos, é verdade) na busca por uma maior representatividade com filmes que tratam a temática homossexual de maneira aberta.

Produções como Meu Passado Me Condena (Reino Unido, 1961) de Basil Dearden com Dirk Bogard, O Funeral das Rosas (Japão, 1969) de Toshio Matsumoto, o clássico Persona (Suécia,1966) de Ingmar Bergman, Teorema (Itália, 1968) e Decameron (Itália,1971) de Pier Paolo Pasolini, o controverso Satyricon (Itália, 1962) de Federico Fellini, As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (Alemanha, 1972) e A Gaiola das Loucas (França, 1978) de Édouard Molinaro são alguns filmes que marcaram o período.

Com a queda do Código Hays, o cinema LGBTQIAPN+ volta a mostrar a sua força com dois filmes que marcam e muito a década de 70…Pink Flamingos (1972) de John Waters com a fantástica Divine e o maravilhoso Rock Horror Pictures Show (1975) de Jim Sharman, filmes que encontraram um sucesso tremendo nas lendárias sessões da meia noite. E não podemos nos esquecer do poderoso Um Dia de Cão (1975) de Sidney Lumet onde o personagem do Al Pacino promove um assalto pra pagar a operação de mudança de sexo do namorado (Chris Sarandon).

Infelizmente, durante os anos 80, a temática LGBTQIAPN+ nas telas voltou a se retrair. Na época, a AIDS surgiu com força e muitas pessoas, erroneamente, relacionavam a doença aos homossexuais. É preciso tbm mencionar que,na época o presidente era Ronald Reagan e seu governo foi um reflexo de uma sociedade conservadora e cristã onde assuntos como homossexualidade e AIDS eram considerados tabus.

Mas então algo aconteceu. Os anos 90, chegaram mostrando toda uma criatividade e uma coragem como a muito tempo não se via, colocando a temática homoafetiva em destaque. Filmes como Thelma & Louise (1991) de Ridley Scott, o sensível Tomates Verdes Fritos (1991) de Jon Avnet, Garotos de Programa (1992), de Gus Van Sant, o sensacional Traídos Pelo Desejo (1992) de Neil Jordan, o polêmico Instinto Selvagem (1992) de Paul Verhoeven, Filadélfia (1993) de Jonathan Demme, o sublime Priscila – A Rainha do Deserto (1994) de Stephan Elliot, os divertidos Para Wong Fu, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar! (1995) de Beeban Kidron e Será Que Ele É? (1997) de Frank Oz, Procura-se Amy (1997) de Kevin Smith e o devastador Meninos Não Choram (1999) de Kimberly Pierce são os destaques da década.

Chegamos enfim, aos anos 2000 e finalmente vemos a temática LGBTQIAPN+ conquistando novos públicos e o mais importante…conquistando respeito. A passos curtos, é verdade…mas a luta pela representatividade está no seu melhor momento. No meio da década tivemos a chegada de uma obra prima… O Segredo de Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee, além de Milk (2008) de Gus Van Sant e Carol (2015) de Todd Haines. O Brasil também nos apresentou obras magníficas como Madame Satã (2002) de Karim Ainouz, Cazuza – O Tempo Não Para (2004) de Sandra Werneck e Walter Carvalho e o tocante Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) de Daniel Ribeiro.

Por fim, as três estatuetas do Oscar conquistadas pelo forte e tocante Moonlight – Sob a Luz do Lugar (2016) de Barry Jenkins (respectivamente melhor filme, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro adaptado), mostram que o caminho para a aceitação ainda é longo.

Mas pela primeira vez, podemos ter uma pequena esperança…pelo menos no cinema.