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A falta que Zeus faz

  • Categoria: História
  • Publicação: 22/03/2025 11:34
  • Autor: Ricardo Lessa
Muito tempo antes que os atuais bilionários sonhassem em passear de foguete pela estratosfera, os contadores de história da Grécia inventaram um herói que montou o cavalo Pégaso e subiu acima das nuvens, com a pretensão de partilhar a mesa com os deuses.
A estratosfera imaginária de então, séculos antes de Cristo, situava-se num modesto monte com menos de 3 mil metros de altitude, o Olimpo.
Diante da ousadia do orgulhoso humano, o deus dos deuses não vez por menos. Do alto de sua morada, Zeus considerou uma impertinência aquela visita, ainda mais sem convite. Despachou logo uma fulminante abelha para picar o belo cavalo branco voador, que corcoveou e desabou das alturas, levando junto o herói que o montava.
Assim os antigos narram a punição de um homem que imaginava escapar de sua condição mortal. 
Depois de tantas façanhas e conquistas, este herói, chamado Belerofonte, cometeu o pecado da hubris: arrogância que cega e ensurdece os poderosos de todas as épocas e latitudes. 
Nos dias de hoje, porém, Zeus se mudou para Hollywood e virou protagonista de série de sucesso. Mísseis e drones zunem por todo o canto. E as abelhas foram abatidas por agrotóxicos. 
A vaidade desmedida é premiada. O capitólio de Washington foi ocupado pela kakistocracia, ou o poder dos piores.
Algo que ultrapassa a plutocracia, representada pelo pelotão dos mais endinheirados do mundo, formado na primeira fila da posse do novo comandante da maior armada do planeta. Podemos acrescentar que é o governo dos mais destruidores, maiores criadores de lixo, maiores devoradores de recursos naturais.
A soberba dos kakistocratas chega ao ponto de pregar despudoramente uma nova eugenia, mesmo depois de todos os desastres sofridos pela espécie humana durante o nazifasmo e o Apartheid. 
Não importa a altura que possam alcançar em seus próprios delírios de riqueza e ignorância, seus destinos estão irremediavelmente atados aos mais famélicos e indigentes habitantes dessa maltratada bolinha azul que gira em torno do sol. 
Todas as contas dos cientistas que acompanham a voracidade do consumo do mar, da terra e da atmosfera, mostram que estamos próximos do esgotamento dos recursos da natureza da Terra.
Estão jogando fumaça preta na fina película de oxigênio e gases que respiramos ocupa uma altitude de 100 quilômetros em média, menos de 0,1% daquilo que enxergamos nas fotos tiradas pelos astronautas.
Os ignorantes poderosos que se imaginam deuses podem não cair do cavalo Pégaso, mas ficarão sem respirar como todos os outros terráqueos. Ou serão picados por vírus e bactérias que não podemos prever.

Ó Zeus, por que nos abandonaste!

Ricardo Lessa,
Jornalista, autor do livro "O primeiro golpe do Brasil".